Uma pessoa com autismo pode fazer balé?
Quantas preocupações e dúvidas surgem na cabeça dos pais que tem filho com autismo. Será que ela será aceita? A academia de balé ou outra modalidade aceitará minha filha? Será que vão tratá-la igual as outras? Como será aula?
Bom, leia o artigo até o final e compreenda como funciona uma aula de dança para quem tem autismo.
Uma breve explicação sobre o autismo.
O autismo ou o transtorno do espectro autista, é uma condição permanente que leva a uma dificuldade nas interações sociais e na comunicação, comportamento estereotipados e interesse incomuns à pessoas da mesma idade.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V-TR), o autismo, junto com a síndrome de Asperger, se encontra na categoria de transtornos do neurodesenvolvimento, podendo ou não estar associadas ao retardo mental.
O autismo é chamado de espectro por conta da variedade do sintoma e o grau de acometimento.
Uma criança autista pode não ter, necessariamente, todos os sintomas e inclusive pode tê-los de forma leve. Isso dificultou, durante muito tempo, (e ainda dificulta) o diagnóstico na infância e diminui a possibilidade de estimulação desde cedo.
As principais características do autista são:
- Dificuldade na reciprocidade sócio emocional – dificuldade de demonstrar emoções e interesses, dificuldade para iniciar ou manter uma interação social, conversa, etc.
- Problemas no uso e compreensão de comunicação não-verbal, por exemplo, gestos, expressão corporal, toques, olhares, tendendo a entender apenas o que é dito literalmente.
- Certa dificuldade em fazer e manter relacionamentos – compartilhar e dividir brinquedos e brincadeiras, mudar o ambiente e manter interesse em crianças da mesma idade.
- Presença das manias – gestos motores repetitivos e, muitas vezes, sem sentido como, alinhar brinquedos, necessidade de sempre ter algo na mão, repetição das palavras (ecolalia), estalar os dedos.
- Necessidade extrema de rotina e dificuldade de se adaptar às mínimas mudanças – isso faz com que tenham maior preferência por tarefas repetitivas e sequenciais que por tarefas de raciocínio e integração.
- Interesse exacerbado ou a coisas incomuns, por exemplo, passar horas olhando para um ventilador.
- Muita ou pouca sensibilidade aos estímulos sensoriais do ambiente, por exemplo, algumas crianças se incomodam com o som do microondas e outras não demonstram dor mesmo em ferimentos graves.
- Habilidades especiais – Algumas crianças podem ter habilidades altamente desenvolvidas, que contrastam com os déficits de desenvolvimento de outras áreas, por exemplo, habilidades em decorar números, saber muito sobre algum assunto, etc.
Quando devemos começar a prestar atenção no comportamento?
Essas alterações aparecem em torno dos três anos de idade, quando os pais começam a se preocupar, porque percebem que a linguagem e a interação social não estão se desenvolvendo bem, ou ainda, iniciaram o desenvolvimento, mas estagnaram.
Portanto, essas condições podem não ser perceptíveis desde cedo, já que a criança pode aprender a tolerar certas situações sociais e/ou aprender a mascarar os sintomas quando são leves.1
A incidência, ou seja, o diagnóstico de novos casos, de autismo vem aumentando muito durante as últimas décadas. Isso gerou algumas teorias de que certos fatores ambientais poderiam estar aumentando o número de casos.
Porém o que os estudos mostram é que, com a adoção de uma definição mais ampla do que é o autismo, somado ao maior diagnóstico de casos sem retardo mental, conscientização da população e divulgação de casos de sucesso, fizeram com que mais pessoas procurassem médicos especializados e, assim, poder investigar.1
O diagnóstico do autismo não é simples…
O diagnóstico do autismo não é simples e nem pode ser feito por qualquer um. A determinação deve incluir um histórico detalhado, avaliação psicológica, do desenvolvimento e da comunicação muito abrangente, fora os exames adicionais que podem ser necessários para excluir outros prejuízos.1
Por exemplo, nesse momento de pandemia, a situação de mudança de rotina foi ainda mais significativa para as crianças com autismo, como contou a Mônica, para uma matéria do site o Progresso. Ela é mãe do José Miguel, de 5 anos, que tem autismo:
“A pessoa com autismo é extremamente apegada a rituais, rotinas. Aí houve essa ruptura. Isso trouxe para ele sofrimento, entrava em crise durante o dia, chorava, se desorganizava. O que tentei fazer foi manter os mesmos horários e ir promovendo ao longo do dia atividades que ele costumava fazer”
Mônica, mãe do José Miguel de 5 anos
Junto com ela, outras mães contam os desafios de tentar manter a mesma rotina para os seus filhos e como faz falta a interação com outras crianças da mesma idade, além disso, a Mônica contou que pode participar mais ativamente de alguns momentos importantes para o filho, como o desfralde.
Com o crescimento e com o tempo, a criança apresenta melhora nos relacionamentos e outras habilidades sociais e comunicativas, apesar de continuarem sendo diferenciadas.
O desfecho de sucesso se dá por meio da educação, em que são feitas intervenções e são dados estímulos individuais, se necessário. A inclusão está diretamente associada com uma melhora no quadro, na socialização e no desenvolvimento.
Inclusão na educação do autismo
A figura abaixo mostra como exemplo se dá o processo de inclusão em vista à exclusão, segregação e a interação, podemos dizer que a inclusão é muito mais efetiva e respeita o direito de todos.

A exclusão acontece, muitas vezes, não por haver preconceitos mas por não saber como lidar com as especificidades de cada criança com autismo. Então, ao se isolar, a criança perde a oportunidade de interagir com as demais crianças e adultos, prejudicando o seu desenvolvimento.4
Como devemos proceder com uma aluna autista em ambiente de aula?
E como deve ser esse ambiente de sala de aula? As aulas de dança ou ballet não devem ser segregadoras ou integradoras. Devem ser inclusivas.
A forma de ensinar os conteúdos é que têm que ser adaptada para os alunos, tendo eles deficiências ou não. A criança não tem a obrigação de se moldar à aula.
Para incluir esse aluno ativamente, precisamos entender os sintomas que essa criança apresenta, os seus interesses e aquilo que ela não gosta para, então, desenvolver formas alternativas de se comunicar com ela.
Essas estratégias são o que os psicólogos chamam de Zona de Desenvolvimento Proximal.
Significa uma etapa do desenvolvimento em que a criança faz algo com ajuda de um adulto ou objeto, mas que no futuro conseguirá fazer sozinha.
Por exemplo, se a criança não consegue falar, mas se interessa por figuras, podemos usá-las para mediar a comunicação e a interação com outras crianças. Aos poucos a criança vai adquirindo linguagem e não precisará mais da ajuda do objeto.4 Dessa forma, conseguimos focar nas suas potencialidades individuais, para que ela consiga se desenvolver.
Será que minha filha autista vai atrapalhar as aulas de balé?
Ter uma sala de aula de dança ou balé inclusiva significa beneficiar não apenas a criança com autismo, mas todas as outras envolvidas no processo. A partir dessa situação, todos aprendem a reconhecer e respeitar as diferenças, mesmo aquelas que não estão ligadas ao transtorno em si, como as diversas cores de cabelo, tipos de cabelo, facilidades, habilidades e potencialidades de cada um.5
Entendem na prática como é se colocar no lugar do outro e, ainda, tem a oportunidade de conhecer novas formas de aprender e ensinar o mesmo conteúdo. Por isso seu ensino regular não fica prejudicado. Temos que lembrar que, mais que transmitir conteúdos, a educação forma pessoas para a sociedade. Todos os alunos devem fazer parte dessa inclusão, colaborando para uma sociedade mais justa e igualitária.
Autismo, Dança e Ballet!
A dança quando usada como forma de desenvolver déficits de alguma deficiência é chamada de dançaterapia.
Já foi comprovado que a dança e o balé auxilia na redução da gravidade do autismo de quem a pratica.
Dentre outros benefícios como o bem-estar prazer e satisfação, podem ser observados:6
- melhoria no desempenho motor e gestual;
- evolução no equilíbrio corporal e na marcha;
- benefício na capacidade motora estática e dinâmica;
- aumento da qualidade de vida
Isso acontece justamente por conta dos estímulos de diferentes tipos e direções de caminhadas, exercícios de equilíbrio, movimentos rítmicos e expressivos, todos proporcionados pela dança e que, antes, eram negligenciados.
Explicando o autismo e o ballet mais afundo.
Explicando mais a fundo, como as pessoas com autismo têm um desenvolvimento atípico dos neurônios espelho, elas têm muita dificuldade de se colocar no lugar do outro e, no caso da aula de balé, copiar os passos, mas imitação é uma das primeiras etapas no processo de aprendizagem.
Por isso, mesmo que no início ela tenha dificuldade, a dança e o balé clássico ajuda nesse processo de estimulação, que pode ser levada para as outras áreas da vida.5
Então, aos poucos, ela vai adquirindo capacidade de gerar as suas questões sensoriais, como a visão, sons e toques, com a progressão gradativa da sua exposição mediada pelos professores. O objetivo é que as crianças com autismo consigam evoluir através das aulas do balé para adquirirem o máximo de autonomia na vida delas, por isso é importante que ela conviva com os pares.
Para aplaudir de pé!
Uma história inspiradora é a do Philip Martin-Nelson. Ele foi diagnosticado com autismo severo, não conseguia falar nem deixava que os outros o tocassem. Mas desde cedo foi estimulado a praticar esportes e o ballet, começou a se desenvolver.
Quando conseguiu falar, mostrou o seu interesse em dançar. Aos 6 anos, fez a sua primeira aula de ballet e desde então não parou mais.
Segundo ele, o ballet foi a sua salvação, algo que ele realmente quer fazer e prestar atenção.7
Hoje, ele faz parte de uma companhia de ballet chamada Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, uma companhia cômica composta apenas por homens.
Na foto, central, Philip Martin-Nelson. Na foto da esquerda, como o seu personagem Nadia Doumiafeyva e, na foto da direita, como Kravlji Snepek. Reprodução do site Les Ballets Trockadero de Monte Carlo.
Referências
1 KLIN, Ami. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo , v. 28, supl. 1, p. s3-s11, May 2006 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462006000500002&lng=en&nrm=iso>. access on 19 Apr. 2021. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462006000500002.
2 AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM-5®. 5. ed. [S. l.]: Artmed, 2014. ISBN 978-85-8271-089-0. Disponível em: http://www.niip.com.br/wp-content/uploads/2018/06/Manual-Diagnosico-e-Estatistico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5-1-pdf.pdf. Acesso em: 20 abr. 2021.
3 MÃES relatam avanços e desafios para crianças autistas na pandemia. 3 abr. 2021. Disponível em: https://www.progresso.com.br/variedades/bem-estar/maes-relatam-avancos-e-desafios-para-criancas-autistas-na-pandemia/380725/. Acesso em: 21 abr. 2021.
4 MATTOS, Laura Kemp de; NUERNBERG, Adriano Henrique. Reflexões sobre a inclusão escolar de uma criança com diagnósticos de autismo na Educação Infantil. Revista Educação Especial, [s. l.], v. 24, n. 39, jan./abr. 2011. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/index.php/educacaoespecial/article/view/1989. Acesso em: 20 abr. 2021.
5 AULA # 25 – Inclusão nas aulas de dança. Produção: Psicopedagodança Jeviane Dubois. [S. l.: s. n.], 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U2DPmgTJNA8. Acesso em: 20 abr. 2021.
6 TEIXEIRA-MACHADO, Lavinia. Dançaterapia no autismo: um estudo de caso. Fisioter. Pesqui., São Paulo , v. 22, n. 2, p. 205-211, June 2015 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-29502015000200205&lng=en&nrm=iso>. access on 20 Apr. 2021. http://dx.doi.org/10.590/1809-2950/11137322022015.
7 CARVALHO, Vicente. Jovem com autismo severo tem sua vida salva através do balé. [S. l.], 28 jul. 2015. Disponível em: https://razoesparaacreditar.com/jovem-com-autismo-severo-tem-sua-vida-salva-atraves-do-bale/. Acesso em: 21 abr. 2021.
8 DANCERS: PHILIP MARTIN-NIELSON.. Disponível em: https://trockadero.org/dancers/philip-martin-nielson/. Acesso em: 21 abr. 2021.







